Capa do texto Tecnologia: uma questão de classe
A tecnologia concentra poder. A tecnologia não é um pano de fundo neutro da vida social, ela define quem trabalha, como trabalha, por quanto tempo e sob quais condições. Quem controla as máquinas, as plataformas, controla, em larga medida, a vida das pessoas. Se a tecnologia é uma forma de poder, a pergunta inevitável é: quem a controla?

Feita por muitos, controlada por poucos

Há um senso comum, profundamente enraizado na nossa cultura política, segundo o qual o avanço tecnológico ocorre de maneira constante e invariavelmente para melhor, e que o capitalismo seria o ápice desse processo evolutivo. Esse senso comum cumpre uma função, ocultar que o desenvolvimento tecnológico é fruto do trabalho coletivo, das relações entre as pessoas e dos contextos sociais, históricos e culturais em que vivem. Afinal, toda época humana foi tecnológica, e apresentar a nossa como excepcional é recurso retórico de grupos dominantes que buscam naturalizar sua própria forma de organizar a técnica.

Os progressos significativos na ciência e na tecnologia não são resultado da genialidade de indivíduos, mas de conhecimentos, demandas e esforços coletivos. O capitalismo não cria tecnologia, ele se apropria dela. A ideia do gênio inventor, do empreendedor que sozinho transforma o mundo, é uma ficção útil, na prática, cada avanço técnico significativo é resultado de acumulações lentas experiências de trabalho, erros corrigidos, saberes transmitidos entre gerações, pesquisas financiadas coletivamente. O capitalismo privatiza esse conhecimento comum, transforma-o em propriedade, em produto, e devolve à sociedade como mercadoria aquilo que a própria sociedade produziu.

Durante séculos, ferramentas e técnicas foram desenvolvidas por artesãos, agricultores e trabalhadores como extensões de seu próprio saber. O capitalismo capturou esse processo e inverteu sua lógica, a técnica deixou de servir ao trabalhador para servir à acumulação de capital. A incorporação da tecnologia ao processo produtivo não tem como horizonte o bem-estar de quem trabalha tem como horizonte a extração de mais valor no menor tempo possível. A tecnologia reorganiza o dia de trabalho em favor do capital, reduz a parte em que o trabalhador produz para si e amplia a parte em que produz de graça. Quando o capitalismo adota uma tecnologia, raramente escolhe a melhor solução técnica possível. Escolhe a mais conveniente para seus interesses.

O gerenciamento algorítmico das plataformas de entrega e transporte é um caso exemplar, os algoritmos que definem rotas, tarifas e punições dos trabalhadores não foram desenhados para otimizar o trabalho, foram desenhados para concentrar o controle nas mãos da empresa e transferir todos os riscos para quem trabalha. No Brasil, pesquisas documentam como o sistema de score oculto do iFood distribui ou retira pedidos dos entregadores sem qualquer transparência, e como o bloqueio automático opera sem que nenhum humano precise acionar um botão. Nos armazéns da Amazon, o mesmo princípio opera em outro nível. Documentos judiciais revelaram que sensores e algoritmos monitoram cada movimento dos trabalhadores, estabelecem metas de produtividade por hora e emitem notificações automáticas de demissão quando o ritmo cai, sem que nenhum gerente humano precise assinar a ordem. A tecnologia não substituiu o chefe. Ela se tornou o chefe. O trabalhador "parceiro" que aparentemente define seus próprios horários também arca sozinho com todos os riscos. A máscara mudou; a relação, não.

O desenvolvimento tecnológico não está acima das relações sociais, como se obedecesse a uma lógica própria e autônoma. Ele está dentro delas, moldado, sob o capitalismo, pelo imperativo da acumulação, pela necessidade de controlar o processo produtivo, pela busca permanente de reduzir o poder de quem trabalha.

O mito da neutralidade tecnológica

Os artefatos tecnológicos não são recipientes vazios esperando para ser preenchidos por intenções boas ou ruins. Eles carregam decisões embutidas com consequências precisas. Quando um algoritmo de crédito penaliza CEPs de bairros periféricos, ele não está sendo neutro, está codificando a desigualdade histórica e chamando isso de cálculo objetivo. A objetividade, aqui, é uma máscara.

Há casos ainda mais explícitos. Na história da urbanização norte-americana, houve pontes projetadas com vãos deliberadamente baixos em determinadas rodovias, baixos o suficiente para impedir a passagem de ônibus. O resultado prático era que as praias e parques públicos servidos por aquelas estradas ficavam inacessíveis a populações negras e de baixa renda, que dependiam do transporte coletivo. Nenhuma lei segregacionista precisou ser escrita. A discriminação estava na engenharia. O concreto fez o trabalho que a política formal não poderia mais fazer abertamente.

Esses exemplos revelam um princípio geral, a tecnologia estabiliza relações de poder. Quando uma forma de organizar a produção, o trabalho ou o espaço se cristaliza em máquinas, softwares e infraestruturas, ela deixa de parecer uma escolha, passa a parecer uma necessidade. E naturalizar uma escolha política como necessidade técnica é uma das formas mais eficazes de dominação, justamente porque dispensa a coerção visível.

Isso vale também para os sistemas digitais contemporâneos. Algoritmos que definem quem aparece numa busca, quem recebe uma oferta de emprego, quem é sinalizado como risco em um sistema de segurança, não são mecanismos imparciais, são expressões de quem os projetou, com quais objetivos e a partir de quais dados. E os dados também não são neutros, eles registram o mundo como ele é, com todas as suas hierarquias e exclusões, e as projetam para o futuro como se fossem inevitáveis.

Uma outra tecnologia é possível

O que foi construído a partir de determinadas relações de poder pode ser contestado, reconfigurado e orientado por outras lógicas. A história mostra que trabalhadores, movimentos sociais e comunidades sempre buscaram interferir nas formas como a técnica organiza suas vidas, e essa interferência é, em si, uma forma de luta de classes. O trabalho que sustenta o capitalismo digital não é apenas o dos programadores e engenheiros de produto nas grandes corporações. É também o trabalho invisível de milhões de pessoas que alimentam algoritmos com seus dados, que moderam conteúdo em condições precarizadas, que entregam comida e mercadorias sem qualquer proteção. A plataformização do trabalho não criou uma nova liberdade, criou uma nova forma de subordinação, sofisticada o suficiente para se apresentar como autonomia.

Disputar a tecnologia começa por recusar a ideia de que a forma atual de organizar os meios técnicos de produção é a única possível ou a mais eficiente. Há décadas, movimentos de software livre vêm demonstrando, na prática, que é possível produzir tecnologia fora da lógica do lucro e da propriedade privada do código, e que essa tecnologia pode ser mais robusta, mais segura e mais acessível do que seus equivalentes proprietários. No Brasil, esse movimento teve força suficiente para influenciar políticas públicas, criar infraestruturas digitais para o Estado e formar uma geração de profissionais comprometidos com outra concepção de tecnologia. Mas disputar tecnologia também exige ir além do código. Exige perguntar quem projeta os sistemas, com quais dados, para resolver os problemas de quem. Uma tecnologia popular não é apenas aquela distribuída gratuitamente, é aquela desenvolvida a partir das necessidades reais de quem trabalha, de quem é sistematicamente excluído, de quem vive nas margens das cidades e dos mercados. É aquela que recusa reproduzir, em seus algoritmos e infraestruturas, o racismo, o sexismo e a desigualdade que estruturam a sociedade. Não basta que a tecnologia seja acessível se ela continua sendo feita sem as mulheres, sem as populações negras e periféricas, sem os trabalhadores que serão diretamente afetados por ela.

Construir uma tecnologia popular é, nesse sentido, um projeto político. Implica disputar financiamento, formação, infraestrutura e regulação. Implica organizar trabalhadores do setor tecnológico em torno de outras condições de trabalho e de outras finalidades para o que produzem. Implica fortalecer iniciativas de soberania digital, a capacidade de comunidades, movimentos e países de controlarem suas próprias infraestruturas de dados e comunicação, sem depender de plataformas que extraem valor sem redistribuí-lo. Disputar tecnologia é disputar poder. E, se a forma capitalista de organizar a técnica tende a fortalecer a dominação e a desigualdade, então construir uma tecnologia popular é lutar por um novo mundo.